Como o terrorismo golpista pode ser positivo para o governo Lula
- Robson Perez
- 26 de jan. de 2023
- 4 min de leitura
Pode parecer estranho buscar por efeitos positivos em meio ao terror provocado pelo bolsonarismo golpista (pleonasmo?) na tarde do último dia 8 de janeiro.

Não se trata, porém, de uma empreitada apoiada em otimismo delirante, mas de uma tentativa de traçar cenários possíveis, mais ou menos prováveis, capazes, por exemplo, de compor o pano de fundo para tomadas de decisão de empresas e organizações no horizonte próximo.
Até as emas do Planalto Central sabiam que grandes contingentes de bolsonaristas se deslocavam à capital federal durante aquela semana e que os objetivos dessa turba não são, desde o dia 30 de outubro, pacíficos ou democráticos, mas golpistas.
O primeiro efeito positivo (da perspectiva do governo de turno) que se delineia no horizonte é o enfraquecimento do bolsonarismo, especialmente no interior das instituições. As motivações que levam indivíduos a aderir a determinado ideário, bem como a proposições políticas baseadas nele, podem ser as mais diversas, mas é comum que elas possam ser agrupadas sob dois guarda-chuvas principais, o da convicção e o da conveniência.
No primeiro caso, o apoio se legitima na crença sincera de que aquela é a direção a ser seguida. Em geral, essa direção é apontada por um líder e a crença, reforçada pela autoridade exercida por ele e pela maior ou menor tenacidade de seus seguidores. No que se refere à conveniência, a adesão à determinada plataforma política é guiada por um cálculo acerca das vantagens individuais que podem ser obtidas.
É comum que a convicção que mobiliza eleitores e militantes seja maior do que a que orienta seus líderes: pensem, por exemplo, em bolsonaristas aquartelados enquanto Bolsonaro embarca para a Flórida. Políticos costumam ser mais pragmáticos, empenhando seu apoio de acordo com as perspectivas de ganhos individuais que possam aquilatar seu capital político-eleitoral.
Essa é a razão central pela qual o bolsonarismo, especialmente no interior das instituições, deve se enfraquecer no horizonte próximo. Depois do que se viu em Brasília na tarde do dia 8 de janeiro, o bolsonarismo tende a tornar-se radioativo para os atores que aderiram a ele mais por conveniência do que por convicção: de políticos do centrão a integrantes das forças de segurança, passando pelo Judiciário, Ministério Público Federal e, claro, pela cúpula do Congresso Nacional.
O segundo efeito é a contraface do primeiro: o enfraquecimento do bolsonarismo pode fortalecer a coalizão que acaba de derrotá-lo nas urnas. A situação, no entanto, é mais complicada do que parece. Como não existe vácuo de poder, o espaço ocupado pelo bolsonarismo de conveniência será redistribuído, mas nada garante que essa redistribuição se dará em favor do governo de turno.
Ainda assim, é bastante provável que a escalada terrorista do bolsonarismo, por si só, amplie consideravelmente o respaldo institucional recebido pelo Executivo, seja de suas contrapartes no âmbito federal (Congresso e Judiciário), seja no âmbito dos governos estaduais – que provavelmente não estão interessados em ver as cenas de domingo se repetirem em suas respectivas capitais.
Condição necessária: deixar de ser leniente com o terrorismo golpista
Para concretizar essa possibilidade teórica, isto é, para conseguir de fato fortalecer a coalizão, capitalizando os ganhos a partir do enfraquecimento do bolsonarismo, o governo de turno vai precisar liderar uma tarefa mais elementar: preservar o Estado Democrático de Direito. E, para isso, será preciso deixar de ser leniente com o golpismo.
É verdade que as maiores parcelas de responsabilidade pelo que se viu em Brasília no último domingo são dos próprios terroristas e do governo do Distrito Federal. Mas a coisa não se encerra aí.
Até as emas do Planalto Central sabiam que grandes contingentes de bolsonaristas se deslocavam à capital federal durante aquela semana e que os objetivos dessa turba não são, desde o dia 30 de outubro, pacíficos ou democráticos, mas golpistas.
Pode-se argumentar também que a responsabilidade pela segurança era do governo do Distrito Federal (DF), o que é verdade. No entanto, sabendo que tanto o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB/DF), quanto seu secretário de Segurança Pública e ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, são bolsonaristas de primeira hora, assim como boa parte da força policial comandada por eles, acreditar que esses agentes garantiriam a prevalência da lei e da ordem, investindo contra sua própria camarilha, seria, na melhor das hipóteses, uma enorme ingenuidade.
É o fato de ser muito improvável que políticos tão experimentados sejam tão ingênuos que nos leva ao argumento da leniência. Antes de mais nada, é preciso limpar o terreno. Todas as estratégias mobilizadas pelo bolsonarismo desde que foi derrotado no dia 30 de outubro são golpistas, no sentido estrito do termo: primeiro defenderam o argumento estapafúrdio de que as urnas haviam sido fraudadas; quando isso deixou de ser possível, passaram a pregar abertamente a subversão da ordem democrática, à força.
A estratégia, bastante conhecida, é espalhar o caos para tentar justificar uma “intervenção militar”, antes da posse, para impedir que o governo eleito assumisse, depois dela, para derrubar o governo em exercício, por meio de um golpe militar.
Logo, o repertório bolsonarista que vem sendo utilizado desde a derrota nas urnas não tem nada de pacífico ou democrático, argumento predominante no interior das Forças Armadas e bastante influente nas cúpulas do Legislativo e do Judiciário, assim como em muitos governos estaduais. O governo de transição, movido pelo espírito de acomodação de Lula e de seu escolhido para o ministério da Defesa, comprou esse argumento. E aqui não faz diferença se por convicção ou por conveniência.
O fato é que, mesmo depois da posse, o novo governo continuou a ser leniente com o golpismo bolsonarista. Lula inclusive desautorizou Flávio Dino, titular da pasta da Justiça, a qual caberia a missão institucional de lidar com os acampamentos golpistas nos arredores dos quartéis, atribuindo essa missão ao titular da Defesa, José Múcio Monteiro, cuja disposição para agradar generais parece ser muito maior: Monteiro chegou a declarar, inclusive, que os protestos pedindo golpe militar eram” democráticos”, tanto que alguns de seus familiares estavam nos acampamentos.
Em suma, o terrorismo golpista que se instalou no país pode ser duplamente positivo para o governo Lula: enfraquecendo o bolsonarismo e fortalecendo (potencialmente) a coalizão que o derrotou nas urnas. Para que isso se torne possível, porém, precisamos abandonar a leniência com o golpismo que se instalou no país. E esse processo deve ser liderado pelo governo federal.
Wellington Nunes - PhD em Ciência Política e consultor sênior da ARW Advisory
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